FAÇA MAIS DAQUILO QUE TE DEIXA FELIZ

5 min read 943 words 4 views

Bonito, né? Mas, na prática, o que muita gente faz é olhar, dar um sorrisinho, postar nos stories e, em seguida, voltar correndo para a planilha de metas, para o grupo de WhatsApp da empresa e para os boletos em débito automático. A frase, que deveria ser um respiro, vira quase um lembrete irônico: “ei, você, lembra que ainda não está feliz o suficiente?”.

Se o Byung-Chul Han visse esse quadro pendurado na parede de um escritório, provavelmente diria que ele é a decoração oficial da sociedade do desempenho. Vivemos num mundo em que ninguém precisa mandar você produzir mais; você mesmo acorda se cobrando! O imperativo não é mais “obedeça”, mas “seja a melhor versão de si mesmo”. E a frase título deste artigo entra em cena como um abraço motivacional que, de forma sutil, também cobra: “já fez hoje o que te faz feliz? Já otimizou sua felicidade?”.

O “FELIZ” em letras gigantes lembra aqueles letreiros de shopping gritando “PROMOÇÃO”. A promessa é parecida: felicidade em grandes quantidades, facilmente identificável, pronta para ser consumida. Só que, aos poucos, fomos transformando a ideia de felicidade em produto. Ou você coleciona viagens, experiências “instagramáveis” e conquistas profissionais, ou corre o risco de ser visto como “negativo”, “sem energia boa”, “sem propósito”.

Nesse ponto, vale lembrar Viktor Frankl. Ele, que passou por campos de concentração, percebeu algo que desmonta boa parte da autoajuda de Instagram: o ser humano suporta quase qualquer coisa quando encontra um sentido e isso não é sinônimo de prazer constante, nem de felicidade em fonte tamanho 72. Fico imaginando Frankl diante desse quadro verde. Talvez ele perguntasse: “e quando nada do que me deixa feliz está disponível? Quando tudo incomoda? O que eu faço com essa frase?”.

A questão não está exatamente no convite “faça o que te faz feliz”, mas em como ele foi capturado pelo espírito da época. A frase nasceu para ser libertadora, porém acabou virando trilha de vídeo curto: alguém anuncia que largou tudo para viver de conteúdo, muda de cidade, trabalha da praia com um notebook e finaliza com o mantra motivacional. O subtexto é: se você não está fazendo o mesmo, talvez não esteja “honrando a sua essência”.

A ironia é que o mesmo sistema que manda você “seguir seu coração” mede o valor do seu coração em visualizações, engajamento e capacidade de virar marca pessoal. Felicidade vira KPI. A subjetividade entra na planilha: produtividade, bem-estar, equilíbrio emocional, tudo quantificado. Até o lazer precisa ser útil, render networking, virar post.

Talvez a frase só faça sentido se a gente a ler com um pouco de malícia filosófica: “faça mais daquilo que te deixa feliz… mas, antes, descubra o que isso realmente significa para você, e não para o mercado, nem para a plateia invisível que te observa nas redes”. Às vezes, o que te faz feliz não rende foto bonita, não tem filtro, não impressiona ninguém: é uma rotina simples, uma relação profunda, um trabalho sem glamour, mas com sentido.

Isso não cabe em letras gigantes num fundo colorido. Não é slogan. É projeto de vida, feito de silêncio, contradição, recaídas e escolhas que dão pouco like, mas muito enraizamento. E, talvez, o passo mais radical nessa sociedade obcecada por felicidade seja justamente aceitar que nem sempre estaremos felizes e, ainda assim, podemos viver com propósito, dignidade e uma paz que não depende de cartazes inspiradores na parede.

Talvez o “pulo do gato” não é correr atrás de prazeres rápidos ou curtidas vazias, mas redescobrir um sentido mais sólido que aguente o tranco da pressão por performance e da felicidade. Num mundo onde a gente vira nosso pior chefe, a verdadeira revolta é se permitir o silêncio, as imperfeições e os propósitos que não viram postagem. É construir uma vida não de euforia 24/7, mas de dignidade real, onde até o sofrimento, se tiver porquê, vira força pra seguir em frente.

Até a próxima!

Quem é Byung-Chul Han? Byung-Chul Han é um filósofo sul-coreano nascido em 1959 em Seul, radicado na Alemanha desde os 20 e poucos anos. Estudou metalurgia na Coreia do Sul antes de se mudar para a Europa, onde se dedicou à filosofia, literatura alemã e teologia, doutorando-se em Freiburg com uma tese sobre Martin Heidegger. Hoje, é professor na Universidade de Artes de Berlim e autor de best-sellers como Sociedade do Cansaço e Sociedade do Desempenho, nos quais critica a autoexploração na era digital, o burnout generalizado e como nos tornamos empreendedores de nós mesmos em um mundo de otimização constante. Seus textos são curtos, afiados e virais e perfeito para quem quer entender o mal-estar contemporâneo sem enrolação.

Quem foi Viktor Frankl (1905-1997) Neuropsiquiatra e filósofo austríaco, nascido em Viena, criador da logoterapia – uma abordagem psicoterapêutica centrada na busca por sentido na vida, e não apenas no prazer ou no poder, como propunham Freud e Adler.

Marcelo Alves Ferreira é executivo e pesquisador com mais de 20 anos de atuação em Educação, Saúde e Tecnologia, liderando transformações estratégicas, projetos presenciais e digitais e equipes multidisciplinares em ambientes complexos. Doutorando em Administração e mestre em Tecnologias Educacionais, psicanalista e mentor.

Comentários

Configurações de comentários

GosteiComentarCompartilharAdicionar comentárioAbrir teclado de emojis

Nenhum comentário ainda.

Seja a primeira pessoa a comentar.

Dê início à conversa

Artigos relacionados

Respostas

Como agendar sua mentoria

Antes de tudo, é importante atender alguns pré-requisitos. Você precisa estar cadastrado   em nossa plataforma e ter conexão com o mentor desejado. Se você já possui uma conta, clique aqui e acesse nosso portal. 
Caso não tenha uma conta, após se cadastrar, solicite conexão e aguarde ser aceito pelo mentor (isso ocorre em alguns segundos).

Depois disso, basta seguir os passos abaixo ou, se você já conhece os mentores, use o nosso assistente de agendamento, clicando aqui.